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domingo, 31 de julho de 2016

RESENHA #90: UMA CONSTELAÇÃO DE FENÔMENOS VITAIS, DE ANTHONY MARRA

Ficha Técnica

Título Nacional: Uma Constelação de Fenômenos Vitais (Skoob)  
Título Original: A Constellation of Vital Phenomena (Goodreads)  
Autor: Anthony Marra
Editora: Intrínseca
Ano: 2014
ISBN: 9788580575521
Páginas: 336
Formato: 23,0 X 15,8 cm
Acabamento: Brochura
Gênero: Ficção, Drama, Romance




Sinopse

Ao ver sua casa pegando fogo, após seu pai ser levado por soldados russos, Havaa, de 8 anos, se esconde na floresta e observa as chamas até que um vizinho a encontra sentada na neve. Akhmed sabe que se envolver significa arriscar a própria vida e que não há lugar seguro para abrigar uma criança na vila, onde informantes fazem qualquer coisa por um pedaço de pão. Mesmo assim, ele a conduz até o único lugar em que acredita que a menina poderia estar a salvo: um hospital abandonado que já teve quinhentos funcionários e onde a única médica restante, Sonja, está no degrau mais baixo de sua carreira, amputando membros dilacerados em pacientes atingidos por minas terrestres.
Também médico, Akhmed é pouco competente, mas bem-intencionado, e seus conhecimentos, embora precários, são rapidamente requisitados: ele logo aprende a serrar pernas atingidas por estilhaços de bombas. Apesar dos protestos de Sonja de que o hospital não é um orfanato, Akhmed consegue convencê-la a manter Havva escondida ali.
Nesse cenário de guerras, ocupações e insurgências que arruinaram a Chechênia desde a década de 1990, a confiança entre Akhmed e Sonja desenvolve-se lentamente, com Havva funcionando como ponte. As histórias de perda dos dois médicos farão com que eles se apeguem à menina com uma ansiedade cega.
Um livro de trama surpreendente, que equilibra momentos de violência e extrema delicadeza, experiências traumáticas e lembranças felizes. Uma constelação de fenômenos vitais é uma história comovente sobre amor e sobrevivência. 


Opinião

A história abarca a trajetória de Havaa, Akhmed e Sonja em apenas 5 dias, mas também nos deixa cientes do passado de muitos dos personagens, de maneira que conhecemos profundamente a todos, ainda que eles mesmos ignorem algumas das ricas informações repassadas ao leitores.

Havaa tem somente 8 anos e vive numa distante vila da Chechênia com seu pai Dokka. Certo dia ela foge para a floresta, por ordem do progenitor, carregando uma mala com souvenires de refugiados que já passaram por sua casa, e observa os russos invadirem seu lar e levarem Dokka, transformando quase tudo que ela possuía em cinzas. Já órfã de sua mãe Esiila e agora sem pai, ela conta com o auxílio de Akhmed, um vizinho, para se esconder num hospital, comandado pela médica cirurgiã Sonja.

Akhmed, um médico incompetente, é casado com Ula, uma mulher dependente que vive na cama devido ao lúpus e demência. A vida de todos eles já não seria fácil devido à guerra e falta de recursos básicos como comida, água e luz, mas com a adição de um vizinho como Ramzan, filho de Khassan e informante da Rússia, o panorama é ainda mais desolador.

Sonja é uma mulher de ascendência russa extremamente solitária. Formada em Medicina entre os melhores alunos, ela tinha um futuro promissor em Londres, porém decidiu voltar à Chechênia por sua irmã Natasha. Mas Natasha já não faz mais parte de sua vida quando Akhmed e Havaa aparecem em seu caminho. A princípio ela é relutante, mas como precisa de mais mãos no hospital (as enfermeiras gêmeas são impagáveis) que atende muitas amputações por minas terrestres, Sonja aceita a troca proposta por Akhmed. 

Narrado em 3ª pessoa, o livro abarca os pontos de vista dos personagens mencionados (exceto Esiila e Ula), contando suas histórias de 1994 a 2004 utilizando bastante digressão; no que seria o presente, somente 5 dias de convivência entre os personagens principais. Isso poderia ser confuso, mas Anthony Marra foi um perfeito mestre em sua escrita, interligando da maneira natural e por vezes complexa todos os personagens, sem se perder na narrativa. O tema é chocante e triste, mas a sutileza do autor e as características marcantes de cada personagem trazem muita leveza. Não sei o quanto da escrita é baseada em fatos reais – na página 156 há uma justificativa para o massacre e controle da Chechênia pela Rússia, que obviamente envolve petróleo , entretanto tenho a impressão de que houve muita pesquisa e, com base nela, a parte fictícia foi toda estruturada detalhadamente.

Em certos momentos, eu pude ver como a morte pode ser destrutiva, especialmente para aqueles que ficam em dúvida se seu familiar amado está de fato morto, e se agarram ao que seja para preservar o mínimo de esperança e sanidade; em outros, a morte parece uma bênção que vem para trazer a paz que não se conseguiu em vida; e ainda mais, algumas vezes viver é o maior castigo que alguém pode receber, vivendo com suas dúvidas e culpas. O valor da amizade, no entanto, é primordial em todas as horas.

Nunca tinha ouvido sobre este livro (comprei-o na Americanas por R$10,00)  e estava para trocá-lo sem ao menos ler, pois a história não tinha indícios de que me cativaria. Ainda bem que não o fiz e estava totalmente enganada. Com toda a certeza, é uma história inesquecível e que sempre recomendarei! 


Frases Marcantes

“ — Esta é a minha casa.
— Não pense nela desse jeito – disse ele.
— De que jeito?
— Como se ainda fosse sua.”

“ — Você não deveria ter pressa – disse ele. — Não existem papilas gustativas em seu estômago.
Ela parou para avaliar aquele argumento e então deu outra mordida.
— Não há fome em sua língua – resmungou entre as mordidas.”

“Ele sempre tentou tratá-la como uma criança e ela sempre concordou com isso, embora infância e inocência fossem criaturas fantásticas que tinham morrido havia muito tempo, ressuscitadas apenas em brincadeiras de faz de conta.”

“Nesse sentido, a guerra era um equalizador, a primeira verdadeira meritocracia chechena.”

“De volta ao escritório de geriatria, ela deu à menina uma boneca Barbie de cabelo louro que estava nos achados e perdidos. Pertencera à filha de um católico devoto, de Varsóvia, que acreditava que os fabricantes de brinquedos das lojas de departamentos estavam conspirando para transformar sua menina de dez anos em uma idólatra e por isso encaixotou todas as bonecas da garota, exceto as natalinas, e, imbuído do espírito de caridade cristã, enviou-as para um país pagão, onde não poderiam fazer mal às almas de crianças que já estavam além da salvação.”

“ — Meu pai diz que a persistência é uma maneira educada de ser chata.”

“Em sua indiferença, ele viu a verdade de um mundo no qual não queria acreditar, aquele em que um ser humano pode ser descartado tão facilmente quanto um fiapo de tecido.”

“Ele colocou os braços ao redor da mulher e do filho e os abraçou enquanto o Estado que lhe havia negado sua vida morria em silêncio.”

“Sonja se levantou e caminhou para o apartamento, com medo do que poderia ouvir em seguida. Na mesa da cozinha, examinou o copo de gelo. Os cubos estavam arredondados dissolvendo-se em seus próprios restos, e entendeu, tardiamente, que era assim que um ente querido desaparecia. Apesar do choque de entrar em um apartamento vazio, a ausência não é imediata, é mais um desbotamento do tempo presente que você compartilhou, um derretimento em direção ao passado, não um apagamento, mas uma conversão na forma, da presença à memória, de sólido para líquido, e a pessoa que você tocou um dia agora corre sobre sua pele, agora escorre por suas costas, e você pode se banhar, pode afundar, pode se afogar na memória, mas seus dedos não podem segurá-la. Ela levantou o copo até os lábios. A água estava limpa.”

“Se enganarmos nossos cérebros para pensarem que o jantar preenche um prato, podemos enganá-los para pensar que nossos estômagos estão cheios.”

“Vida: uma constelação de fenômenos vitais – organização, irritabilidade, movimento, crescimento, reprodução, adaptação.”

“ — Quem ganha? Os norte-americanos ou os russos?   
— Ambos – respondeu o pai, olhando para a vidraça coberta de geada.
— Então, quem perde?
— Todos os outros.”

“ — Sempre achei que a visão de Marx sobre religião era a única coisa certa nele. A fé é uma muleta.
— Se você pisar em uma mina terrestre – disse Akhmed –, a muleta torna-se a perna.”


Capa e Diagramação


A capa é simples e bonita, com estrelas douradas em baixo relevo e árvores ao fundo. Os capítulos iniciam sempre numa nova página, com o número correspondente e uma linha do tempo indicando o ano em que se passará. As páginas são amareladas e possui orelhas.
A fonte das letras é pequena e o espaçamento é bom. A numeração das páginas é na parte inferior externa, e esta ainda possui o nome do autor (páginas à esquerda) e nome do livro (páginas à direita). Encontrei 7 erros de digitação/revisão que não prejudicam a leitura.


Book Trailer



Nota



Autor

Anthony Marra ganhou o Pushcart Prize, o Narrative Prize (ambos em 2010) e o Whiting Award (2012). Em 2014 recebeu o prêmio John Leonard oferecido pelo National Book Critics Circle, além de ter sido finalista em 2013 do National Book Award e do Flaherty-Dunnan First Novel Prize. Marra tem um MFA do Iowa Writer’s Workshop e recebeu uma bolsa Stegner da Universidade de Stanford, onde é professor. Viveu e estudou no Leste Europeu e atualmente reside em Oakland, Califórnia.


Onde Comprar



O livro faz parte de nosso acervo pessoal. A resenha realizada aponta pontos positivos e/ou negativos encontrados pelo autor do post no decorrer da leitura. A opinião do autor é pessoal e independente da editora e/ou autor do livro.




Postado por


2 comentários :

  1. Oi, Amanda
    Eu acabei de trocar esse livro no Plus do Skoob, estava nos meus desejados a tempos.
    Ainda não tive oportunidade de ler, que bom saber que é recomendado.
    Obrigada por participar do #DesafioAlfabetoLiterario
    bjs,

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    Respostas
    1. Leia, Luana, é incrível!! O autor consegue entrelaçar as vidas dos personagens de maneira espetacular.
      Beijos.

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